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Não perca o foco

"Nenhum trabalho de qualidade pode ser feito sem concentração e auto-sacrifício, esforço e dúvida." (Max Beerbohm)

Pensei em abrir a minha participação aqui tratando de um tema bem tranquilo, de simples explicação e de fácil abordagem. Porém, resolvi seguir um inesquecível conselho de um antigo professor do 3° grau: “Comece sempre pela questão mais difícil”. Portanto, hoje, discutiremos algo primordial para um bom piloto, mas de difícil aplicação. Estamos falando da chamada CONCENTRAÇÃO.

Não há uma atividade sequer que não exija foco. Qualquer trabalho para ser bem realizado demanda ampla dedicação mental. Perder-se em pensamentos alheios à atividade desempenhada é o primeiro passo para o erro. E ele, em qualquer lugar que apareça, sempre traz danos.

No automobilismo, no entanto, o erro quase sempre é sinônimo de estrago e, em alguns casos, trágico. Nesse esporte, a distância entre o acerto e o desacerto é quase impossível de ser medido, pois nem um fio de cabelo talvez conseguisse entrar no vão que os separa.

No automobilismo virtual, apesar de não termos prejuízos físicos ou financeiros quando falhamos, a frustração, em muitos casos, é inevitável. E a falta de atenção é o caminho doce e venenoso para um treino desperdiçado, um acerto mal construído ou uma corrida sem um final feliz. E qual o caminho para resolver isso?

Bom, não existe uma receita pronta, claro! A mente humana é tão particular quanto a nossa impressão digital. Porém, alguns procedimentos, quando aplicados na prática, podem ajudar um pouco. Vou tentar, a partir daquilo que sigo, apontar alguns caminhos que talvez ajude-o a se manter focado quando está com as rodas no asfalto.

Não confunda seriedade com mau humor. São coisas bem distintas. Realizar algo com seriedade e bom humor é perfeitamente possível. Assim, quando resolver ir para a pista, seja para treinar ou para uma sessão oficial, leve a sério cada conduta sua. Concentre-se naquilo que faz. Um treino, por exemplo, focado nos objetivos que deseja na corrida, quase sempre, faz uma enorme diferença quando chega a hora da largada.

Anote, imagine, metalize. Fale alto repetidas vezes a sua estratégia se precisar. Crie táticas alternativas para a corrida, mas faça o mesmo: anote, imagine, mentalize. Não deixe para a última hora, e só mude caso algo de excepcional acontecer. Decidir o que vai fazer quando já está na pista é pegar a direção perfeita para um abandono precoce. Lembre-se: um carro a 250 km/h, por exemplo, percorre praticamente 70 metros a cada segundo. Aquela “tiradinha de olho” da pista, para mudar algo da sua estratégia, pode tirá-lo facilmente de uma competição.

Tenha um bom som. Se possível, corra com ele alto. Concentre-se no barulho do motor, do contato dos pneus com a pista, no seu spotter etc. Todos os sons emitidos pelo simulador são fundamentais. Acredite. Eles não estão ali por acaso.

Coloque o telefone no silencioso e peça à sua esposa, namorada, filhos, pais etc para não o interromper, pelo menos durante a corrida. Prometa que depois fará tudo por eles, mas reserve aquele momento só para você. Não se esqueça, também, de deixar seu cachorro ou gato bem longe de ti.

Fale com seu companheiro de equipe apenas o essencial durante uma corrida. Seja objetivo, curto e claro. Quando for perguntar algo ou responder um questionamento, espere sempre as retas para fazer isso. É durante a passagem por uma boa reta que temos a oportunidade de aferir combustível, tempo de volta, temperatura do carro, além de falar com o companheiro se necessário e, claro, descansar por alguns segundos.

Prepare todo o ambiente e suas necessidades antes de começar uma corrida. Beba água se tiver sede; lave os óculos se estiver sujo; vá ao banheiro se sentir necessidade; ajeite a posição do banco e pedais em qualquer situação. Quanto menos você se preocupar com o que está fora da tela durante a corrida, mais sucesso terá.

Olhos profundos no monitor. Procure tirar o mínimo possível a sua visão dele. Lá está a sua vida naquele momento. Sinta a velocidade, veja os pontos de referência e viva intensamente aquela ocasião como se estivesse lá dentro. Quando você está na pista, aquele é o seu mundo. Não pode haver outro. Depois, quando tudo terminar, você pode retornar ao planeta real.

Existe alguma coisa que eu possa fazer para não deixar minha mente sair da corrida? Sim. E essa é a técnica que mais utilizo. Não dê descanso à sua cabeça. Ocupe-a com coisas da corrida o tempo todo. Confira seu combustível, mesmo sabendo que ainda tem muito no tanque; olhe seu tempo da última volta na reta oposta, mesmo se já tiver olhado na dos boxes; veja como anda sua diferença para os demais pilotos, mas sem desespero; vigie as temperaturas do seu carro, mesmo se tiver certeza que ele nunca vai quebrar; concentre-se para fazer a próxima volta como a melhor e mais segura que fez até ali, e repita isso enquanto houver voltas para dar; não pare de criar novos e pequenos objetivos a cada marcha que passar.

Nada disso é novidade, não é mesmo? E não foi mesmo pretensão minha dizer alguma. É tudo muito simples. O difícil é juntar cada detalhe desses e praticá-los durante todos os treinos, qualificações e corridas. O complicado mesmo é entender que cada volta é tão importante como um campeonato inteiro. E o mais frustrante é ter a certeza de que, mesmo tomando todas as medidas para ser perfeito, ainda assim, no automobilismo, o erro ainda sempre estará bem próximo de ti.

O seu maior aliado em uma corrida é você mesmo. E seu nome durante aquele momento se chama cabeça. Portanto, aliene-se de tudo o que não for do contexto da uma corrida quando resolver ir para pista. Esqueça o mundo, suas vitórias e fracassos. Nunca dê ênfase a algum erro ou ao seu “achismo” de que não chegará a lugar nenhum. Acelere com a mente e com um único objetivo, que é o dar sempre o seu melhor.

Bruno Melo é jornalista e piloto virtual nas horas vagas.

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